Terraço Itália
Se no Paris 6 você se sente jantando numa cidade cenográfica de quinta categoria, no Terraço Itália você tem certeza que ganhou o jantar como prêmio num programa de namoro do Celso Portiolli. O que não significa que o programa é ruim – jantar no Terraço Itália, não o programa do Celso Portiolli.
Sentir-se num encontro romântico num lugar tradicionalmente romântico com uma banda supostamente romântica é muito divertido. Você, os velhos e estrangeiros habitués, todos uns românticos em potencial. É engraçado sentir-se participando de um clichê.
Os casais dançando de rosto colado enquanto você come o couvert é uma vista tão ou mais interessante que a cidade de São Paulo lá embaixo. Quando a banda ataca de Frank Sinatra praticamente todo mundo abandona o risoto e corre pra pista. Emendam um Fábio Jr. e depois Luis Miguel, tudo com aquela classe dos ternos Colombo. E você se sente numa Nova York de pobre. A sofisticação do lugar cheira à naftalina. Mas é legal, garanto que é muito legal.
Devo admitir que aquela música, os casais apaixonados, os móveis, a vista, tudo me deu até uma vontade de ficar deprimida, pra ornar. Vontade de ir pro balcão do bar, ou melhor, american bar, e ficar tomando uísque girando o gelinho no copo, dar uma de o-lugar-é-perfeito-o-problema-é-que-eu-sou-infeliz. Um lugar tradicional e chic com pessoas felizes e um sujeito sozinho deprimido no balcão é o clichê perfeito. Mas eu só estava sentindo o cheiro da naftalina, do lugar e na roupa das pessoas, e achando tudo muito divertido.
A comida é boa, até que executam direitinho o cardápio que também é um outro clichê mas não chega a cheirar naftalina. No inverno costumam servir um buffet de sopas bem gostosinho e com preço bem mais em conta do que os cobrados no cardápio convencional.
E por último a vista, que é a principal atração do lugar. Vale mesmo a pena, a vista é milagrosa. Simplesmente milagrosa. Consegue deixar São Paulo bonita. Minimamente bonita, é verdade. Mas você deve pensar que é o melhor ângulo da cidade de São Paulo. É o único ângulo em que ela merece ser vista.
Pra terminar a noite, vá para o mirante do restaurante e imagine o cinegrafista do Celso Portiolli fechando em close você e seu par. Aí é só segurar as tacinhas com espumante e brindar daquele jeito tradicional, com as mãos entrelaçadas e um bebendo na taça do outro. Ao fundo a noite estrelada. Mais abaixo o charmoso Copam.
Prece do dia: Senhor, fazei de mim instrumento de vossa APAE
Há muito tempo ouço reclamações sobre a falta de emprego no país para os graduados imediatos do terceiro grau. Tem até aquela velha lenda dos engenheiros desempregados que sobrevivem vendendo cachorro-quente — ou seriam advogados desempregados que entram pro tráfico de órgãos?Bom, o fato é que cada vez que eu vejo na TV o depoimento de um “profissional graduado”, um “especialista” — perdoem as aspas, juro que o uso foi “extremamente” necessário — eu fico com a certeza de que a lenda é fato. Os engenheiros, economistas, advogados, médicos, administradores e principalmente os “jornalistas” devem mesmo estar por aí varrendo calçadas, cortando árvores, arrumando liquidificadores e vendendo e comprando ouro. Eles trocaram de lugar com os verdadeiros camelôs, chapeiros, garis, torneiros-mecânicos e homens-sanduíche, que assumiram o controle do nosso tráfego aéreo, o planejamento da construção de metrôs, estão fazendo cirurgias plásticas, redigindo nossas leis e construindo um plano econômico. Só isso explica o amadorismo do Brasil.
Só isso explica o chapeiro da lanchonete da esquina que não desiste de queimar o meu hambúrguer, toda vez. Ele comenta com muita propriedade as notícias do dia e tem um anel de bacharel no dedo mindinho, mas do ponto da carne ele não entende nada.
Também reconheci outro dia no rádio a inconfundível voz do moço que há dois meses atrás era frentista do posto de Pirituba. Estava discutindo sobre biocombustível com autoridades norte-americanas. Ele acha válido.
Então isso que é globalização? Qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa? Imaginem quando chegar a inclusão social então.
Não quero estar aqui para ver minha mãe, que é uma singela dona de casa, deixar as compras de supermercado sem guardar porque tem que sair correndo para dar explicações sobre o novo acidente aéreo. Nem minha empregada largando a louça e sair enxugando as mão no avental atrasada para o tribunal onde tem que decidir o destino de Champinha. As duas são muito competentes pra isso. Sejam ecologicamente corretos e convoquem o meu cachorro. Ele saberá melhor o que fazer com Champinha. E de quebra vai salvar o mundo do aquecimento global.
Vaca-preta
Pequena cidade do interior. Oito horas da noite de um dia de calor indecente. Eu e minha irmã nos arrastamos até a sorveteria e gastamos a meia hora seguinte tentando fazer um pedido de toneladas de sorvete para viagem. O pedido era complicado. Ou então eu, minha irmã e a moça do balcão estávamos lesadas pelo calor, o que era mais provável. E morando a moça naquela cidadezinha permanentemente quente, estava pior que nós, sofria ela de leseira crônica e profunda.
Enquanto a moça prepara a caixa de isopor com o sorvete que salvaria toda a minha família da combustão espontânea:
Eu: Que deprê esse lugar.
Minha irmã: Por quê?
Eu: Sei lá. Meio sujo. Esse chão, cheio de guardanapos usados.
Minha irmã: Eu não ligo.
E: Esse balcão todo grudento de sorvete.
MI: Ai, coitada da moça. Ela tá sozinha, não dá tempo de ficar limpando tudo.
E: E esse ventilador com crostas de poeira? Realmente deve fazer muito tempo que ela não tem tempo de limpar tudo aqui.
MI: Afff…Cê também reclama de tudo.
E: É o calor. As pessoas vão deixando de se preocupar com as coisas no calor.
MI: Você e a sua teoria. Não é porque o calor te deixa retardada que todo mundo fica igual.
E: Não? Veja Euclides da Cunha, por exemplo. Se aquele livro lá dele não é sinal de retardamento…
MI: Coitado do homem. Ficou andando atrás dos sertanejos e ainda tomou um chifre bonito.
E: E ficava admirado que os carinhas conseguiam parar em pé no sertão. “O sertanejo antes de tudo é um forte!”. Imagina só, naquele calor o toro Euclides não devia mais ter coordenação motora nem pra andar. Imagina ele escrevendo com a mão suada, a caneta-tinteiro escorregando. A tinta da caneta escorrendo. Ele melecado de suor, de tinta.
MI: A mulher dele saracuteando aqui e ele lá coçando a testa com a mão suja de tinta.
E: Ah, mas ele nem ligava…Tranqüilão. Naquele calor ninguém se importa muito com nada.
MI: Tem gente que se importa até com o que não deve. Veja você, por exemplo.
E: É que eu não vivo o tempo todo nesse calor lazarento. Ainda consigo manter alguma dignidade.
MI: Mas num calor desses quem se importa com dignidade?
Moça do balcão: O de limão acabou.Tem doce de leite que vocês ainda não pediram. Posso colocar?
Eu: Pode.
Minha irmã: Não! Doce de leite nesse calor sua retardada?!
Eu: Agora já foi.
Minha irmã: Começando a acreditar na sua teoria que o calor…
Eu: Viu?
Minha irmã: Vou ficar de olho em você pra você não pedir o sabor cocada.
E: Tem?
MI: Uh! Doce que é a morte.
E: Como alguém pode escolher esses sabores?
MI: Um monte de gente pede. Esse de sabor chiclete o povo adora.
E: Olha aquele casal ali.
MI: Que tem?
E: Será que eles pediram sabor chiclete?
MI: Não. Devem ter pedido de creme. Estão misturando com Coca-cola.
E: Vaca-preta. E se você misturar com Fanta, fica vaca-laranja?
MI: Não, vaca-amarela
E: Mas se a Fanta é laranja…
MI: Mas é vaca-amarela que falam. E com Fanta Uva é vaca-roxa.
E: E com Sprite?
MI: Vaca-branca.
E: E guaraná?
MI: Guaraná? Será que é vaca-laranja?
E: Não, guaraná não é laranja.
MI: Ah, é um pouco sim.
E: Vaca-marrom. Deve ser vaca-marrom.
MI: Queria tomar com guaraná Jesus.
E: O cor-de-rosa? Ia ficar vaca-fúcsia.
MI: Acho que o casal tomaria vaca-fúcsia.
E: Acho que sim. Deprê eles, né?
MI: Não acho.
E: Olha direito. Que vida mais sem graça.
MI: Cê nem conhece.
E: Ah, dá pra saber que se casaram há uns dois anos, quando terminaram o colegial, porque não imaginaram nada melhor pra fazer na vida.
MI: Mas não tem muito mesmo o que fazer da vida.
E: Olha as roupas deles. Acho que acabaram de sair da missa. Deve ser o único programa da semana.
MI: Parece uma vida boa. Tranqüila, pelo menos.
E: Tranqüilona. Depois da missa eles passam aqui na sorveteria antes de ir pra casa. E ele conta pra sogra que passaram na sorveteria depois da missa do sábado à noite e ela acha que eles têm uma vida boa, feliz. Fazem isso todo sábado.
MI: Você que é deprê. Pode ser que eles gostem disso.
E: Pode ser. Eu acho triste. Uma vida besta.
MI: É que cê não queria uma vida assim.
E: Não mesmo. Não acho que dá pra viver tomando vaca-preta no sábado à noite.
MI: Ah, acho que dá sim.
E: Sério? Cê acha que conseguiria?
MI: Se gostasse muito de vaca-preta…
Passamos pelo casal na saída da sorveteria. Ela tinha um guardanapo de papel grudado na sandália. Ele tinha a boca brilhando de sorvete com Coca-cola.
Minha irmã e eu nos arrastamos pelo caminho de volta. Minha mão estava toda grudenta. No fundo da caixa de isopor tinha sorvete derretido.
Biotônico Fontoura
Hoje eu vi um menino pequeno, tinha uns cinco anos. Conjuntinho de malha com as peças combinando e tênis limpo, os cadarços com laços bem dados. O cabelo úmido repartido exatamente no meio. Olhava a rua parado em pé do lado de dentro do portão da casa.
A mãe veio com uma nota de dinheiro e moedas, depois destrancou o cadeado do portão. O menino saiu com pressa, quase um sorriso. O menino voltou rápido segurando apertado na mão um saco de papel com pães, e moedas. A mãe esperando no portão aberto. A mãe de rosto faminto e o menino de conjuntinho combinando. A mãe não pegou o troco, ele tentando entregar. Quando o menino passou por ela, olhou de cima sua cabeça dividida no meio, o cabelo bem repartido. O cadeado voltou para a corrente do portão e o menino sumiu na porta da casa com o pão. A mãe entrou atrás, arrumou com o pé o tapete da entrada.
O menino pequeno de cabelo repartido, tênis limpo e roupa combinando, parado do lado de dentro do portão da casa. Tanto que a vida é besta e as mães são cruéis.
Assisto aos jornais da TV com meu caderninho de pistas na mão. Gravo as notícias e depois tento decifrar cada uma delas. É divertido. E depois de três ou quatro horas eu me sinto uma detetive muito bem informada, graças aos gênios do mistério dos telejornais e minha sagacidade bem treinada — sempre assisto House pra treinar.
Todas as notícias são mais ou menos assim: “Num condomínio de luxo de um bairro de classe alta da capital paulista, uma suposta quadrilha especializada em assaltos a prédios, fez refém o provável porteiro e levou objetos de valores de pelo menos três dos quase vinte apartamentos. Entre os moradores assaltados, está um popular jogador de futebol de um dos mais tradicionais clubes desta capital que preferiu não dar declarações. Em sua página pessoal em um famoso site de relacionamentos da Internet, o jogador lamenta o ocorrido e diz desconfiar que pessoas conhecidas tenham participado da ação. No 72o. DP da zona noroeste, o delegado responsável pelo suposto caso provavelmente entrevista as vítimas em busca de pistas e talvez tenha dito que ainda não é hora de falar sobre o caso, mas já adiantou que pode se tratar de uma ação orquestrada.”
Ufa! Nem Hitchcock faria melhor.
Achava mesmo muito careta o jeito antigo de contar a notícia determinando quem, o que, onde, quando e o porquê. Muito mais instigante essa nova linha editorial que não traz nenhum desses elementos determinados. Não entrega a notícia pronta, faz o público pensar. Torço para chegar logo o dia em que todos os fatos serão supostos — como o suposto mensalão.
Pelo jornalismo cartesiano: o tempo todo questionando a realidade. Ops…suposta realidade, é claro.
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E duas grandes notícias que abalaram Bangu:
Ide e palestrai
Não tenho medo do aquecimento global e acho ok o Irã enriquecer urânio. O que mais me assusta na atual conjuntura global é a palestrização do mundo.
Vivemos a apoteose triunfal do caga-regras no seu pior formato, disfarçado de gente inteligente e esclarecida, e disposto a discutir todos as questões cruciais para o desenvolvimento humano e a perpetuação da nossa espécie na Terra.
Toda vez que ligo a TV e perco cinco minutos zapeando entre alguns canais ouço entre duas e seis palestras. Até nas novelas tem gente dando palestras. Aliás, as novelas são só palestras. Nada de tramas, intrigas, traições e paixões proibidas, a moda agora é palestrar pelado. Pior que nem pelado é. Se alguém, o Tony Ramos por exemplo, aparecesse numa cena palestrando pelado seria uma muito, muito engraçado. Mas as pessoas aparecem vestidas como seres distintos e aptos a abordar qualquer tema – a palavra ‘abordar’ aprendi nas palestras; a expressão ‘trazer à baila’ também.
Nos livros é a mesma coisa. Quem precisa de personagens e historias se podemos escrever palestras? Pra que ser romancista se posso ser palestrante por escrito? Você nunca abriu um livro e sentiu no começo do segundo capítulo uma luzinha de laser apontada pro seu nariz? Então, era um personagem tentando começar uma palestra.
Personagem de novela, filme e livro é tudo palestrante disfarçado. Quando menos você espera eles sacam um tema polêmico e te apunhalam pelas costas, ou melhor, te aspeiam pelas costas.
Internet é palestra pura. Blogueiros ganham a vida dando palestras. Sommelier no restaurante não te ajuda a escolher o vinho, faz uma palestra. O mendigo no semáforo não te pede uma esmola, faz uma explanação sobre a situação de exclusão dele. Os jornalistas jamais te informam sobre um fato, eles fazem da notícia a sua mini-palestra.
Cadê a fofoca, minha gente? Cadê o sensacionalismo, a violência, a pornografia? Cadê os contadores de história? Saudoso Rolando Boldrin.
O grande erro foi ter deixado as palestras fugirem das universidades. Deixem as palestras para a universidade. Prendam os palestrantes nas universidades. E coloquem uma placa na porta: Cuidado! Palestra.
Aprendi nas palestras que devo gostar dos pretos, ajudar os pobres, drogados, aleijados e retardados. Devo ter uma alimentação equilibrada, mesmo que minha cabeça não seja. E devo perguntar ao Papa se posso usar camisinha. Mas também aprendi que não posso dizer nunca as palavras preto, pobre, drogado, aleijado, retardado, bandido, fritura e camisinha.
Sofrimento atroz de viver num mundo onde tudo é discussão séria sobre um tema importante. Espero pelo dia em que estarei tomando banho e terei meu box invadido por um palestrante esclarecendo-me sobre o problema dos banhos matinais. Abrirei a geladeira e um palestrante sairá de trás da mortadela com uma apresentação em Power Point projetada no meu peito. Se chegarmos a esse ponto, me disponho a morrer pela causa. Prometo me explodir por um mundo sem palestras na fila do Espaço Unibanco ou na choperia do Sesc Pompéia. Em troca só peço que não transformem a minha causa numa palestra.
E antes que eu me esqueça: vai conscientizar a tua mãe, filho da puta!
Willy Wonka e a fábrica de chapinhas
Eu era uma criança e A Fantástica Fábrica de Chocolate era uma fábula. Tim Burton consegui filmar uma Fantástica Fábrica que é um emotional hardcore.
Achava o Wonka do Gene Wilder só um pouquinho cruel e muito legal, às vezes ele parecia esquisito. O Wonka de Johnny Depp é muito perverso, o tempo todo esquisito e só às vezes legal.
Era uma delícia assistir ao primeira Fantástica Fábrica adorando Willy Wonka e desconfiando muito de vez em quando que ele podia ser perigoso. Na nova versão eu fico tentando muito gostar do Willy mas ele não deixa. É descaradamente malvado, é chato e andrógeno, o que me faz desconfiar o tempo todo da sua sexualidade e do seu caráter. Passei a maior parte do filme fazendo um grande esforço para não achar o sr. Wonka de pancake e batom um pedófilo sem vergonha (já falaram muito sobre a evidente semelhança com o tarado da Terra do Nunca). Sem contar os Oompa-Loompas vestidos de couro e portando chicotes. Nem mesmo o drama infantil do pequeno Wonka me comoveu, é um saco, diria que a pior parte do hardcore emocional.
A tecnologia também fez mal pro filme. Os cenários estão piores e Willy Wonka ganhou escova progressiva.
Tudo bem que eu era uma criança e não sabia do mal que se esconde no coração dos homens, mas o que me parece hoje é que a Fantástica Fábrica de Chocolates era uma fábula gostosa e virou um drama emo-freudiano estrelado por um perverso polimórfico de chapinha.
Católica da gema
Sou o pior tipo de católica, morníssima até não poder mais. E certeza que não conseguirei mudar isso tão logo. Tenho plena convicção de que igreja é coisa de véio, ainda é muito cedo para salvar a minha alma. Muita gente deve ter a mesma impressão com o aumento da expectativa de vida e o advento do botox.
No fundo é uma questão de praticidade: a vida pode ser tããão longa que a alma que se salva agora se perde logo ali na esquina. E aí toca salvar de novo.
Melhor deixar pra salvar definitivo no final. Vou deixar pra salvar a minha quando sentir o ceifeirio implacável fungando no cangote.
Mesmo se não der tempo, acho que dá pra justificar os pecados nos Correios até três meses depois do passamento. Paga-se R$ 3,50 e estamos quites com a justiça divina.
Tudo bem que dessa forma há o risco de ser chamado para trabalhar de mesário no próximo juízo final.
Eu sou a filha da Chiquita bacana
Universidade, aula inaugural. Burocratas de bigode falaram infinitas maravilhas sobre a instituição de ensino superior e esclareceram em três vias o funcionamento da máquina do saber. Mestres e doutores trouxeram à baila questões mui sábias, sublimes, seculares e sapecas. Disseram e disseram até que o último orador pausou o seu discurso, suspirou e finalizou: “Cada um sabe a dor e delícia de ser o que é.” E saímos com aquele caetanear ecoando em nossas mentes calouras.
Mais tarde, nas aulas de filosofia, niilismo vai, existencialismo vem e ardilosamente o mestre inquieta-nos com a questão: “Existirmos: a que será que se destina?”.
Nas aulas de psicopatologia, quando tentávamos vislumbrar a fina fronteira que separa a sanidade da loucura, outro sábio mestre nos alertou: “De perto ninguém é normal”.
Mais crescidinhos, já podíamos falar sobre repressão e conteúdos inconscientes, e o mestre que nos conduzia nesta ousadia arriscou a vida para nos ensinar. Saltou da fria e recalcada Viena para cair certeiro na ditadura militar, que ele considerava um exemplo perfeito para explicar qualquer coisa, inclusive como a repressão funciona na mente das gentes. Foi uma incrível acrobacia de raciocínio metafórico, um salto mortal triplo que terminou num triunfante “É proibido proibir”. Não, ele não quebrou o pescoço.
Depois disso tudo fui praticamente forçada a concluir que Caetano é o grande poeta da mente/alma humana, que ele traga e traduz em verde, em folha, em graça, em vida, em força e luz.
Muito bonito mas não é verdadeiro. Sou espertíssima e não me deixo enganar pela Veja e Rede Globo.
Além disso fui graduada por gente vivida, que me ensinou que a mídia manipula tudo, até o Caetano.
Depois da leitura de muitos artigos científicos e teses de doutorados finalmente tive o insight: a verdade verdadeira é que Caetano paga jabá para ser citado nas universidades.
Só isso explica o fofíssimo “Gosto muito de te ver, Leãozinho” que ainda ouvi do paraninfo no dia da colação de grau.
Manoel Carlos do meu saco
No restaurante:
Eu podia estar por aí fazendo malabarismo nos cruzamentos, pedindo cotas pra universidade pública ou recebendo o Bolsa Família, mas não, estou aqui assaltando vocês honestamente. Por favor, contribuam passando jóias, celulares e carteiras. Não quero sua palavra de consolo, pode ficar com a sua inclusão e não me passa o endereço da ONG onde você faz trabalho voluntário. Se fizerem isso eu atiro.